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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

mais leminski

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tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
los hay



uma foto da luísa e um poema de leminski



a árvore é um poema
não está ali
para que valha a pena

está lá
ao vento porque trema
ao sol porque crema
à lua porque diadema

está apenas




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

é preciso quebrá-las



No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las

Ferreira Gullar

quinta-feira, 27 de maio de 2010

assombrada por si mesma

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a ruína
é uma casa assombrada
por si mesma

suas janelas
dão pra dentro
de outro tempo

olhar por elas
é revê-las
(revelá-las)

quem a imitaria
tão bem
quanto sua sombra

que sombra
é aquela
senão a dela?

que luz a vela
leva até ela
que não existe mais?

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(Alice Ruiz)

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

caio como um cisco

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minha cidade
cai pela janela
como um cisco

meu olho
caleidoscópio
é o coração que acolhe
fragmento por fragmento
até que toda cidade
e sua história
caiba dentro

nessa rua, por exemplo,
já passei há muito tempo
mas não tinha esse olhar
indo embora

para o futuro,
a memória desse momento
que passou agora
será a lembrança de outro
e ainda outro mais antigo

caio como um cisco
na cidade
somos, as duas,
uma rápida paisagem.
De passagem.

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lugar de paina

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Sobre o meu corpo se deitou a noite

(como se eu fosse um lugar de paina).

Mas eu não sou um lugar de paina.

Quando muito um lugar de espinhos.

Talvez um terreno baldio com insetos dentro.

Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de uma pedra.

Não tenho os predicados de uma lata.

Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro – feito um osso de gado

Ou um pé de sapato jogado no beco.

Não consegui ainda a solidão de um caixote – tipo aquele engradado de madeira que o poeta Francis Ponge fez dele um objeto de poesia.

Não sou sequer uma tapera, Senhor.

Não sou um traste que se preze.

Eu não sou digno de receber no meu corpo os orvalhos da manhã.


MANOEL DE BARROS

em Retrato do Artista Quando Coisa, Ed. Record, 1998

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

tempo

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No tempo tudo cabe
tudo muda de lugar
tudo some
não ficam parados no espaço
o gosto das frutas
e o cheiro dos homens.
O tempo dispensa a vontade alheia
impõe-se sobre a selva e a cidade
e destas nascem as folhas e os filhos
que o próprio tempo amadurece e faz saudade.
O tempo – enorme! – eleva os deuses
arrasta os homens
e espalha o mistério de uns
sobre a solidão dos outros.
De muito longe o tempo caminha
não como um velho
tão pouco uma criança:
unicamente caminha
- e sugere a esperança
e adormece as rugas.
O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.
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Nirton Venancio
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domingo, 27 de dezembro de 2009

sertão

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subo na caixa d'água de ceilândia
e lá de cima vejo o sertão
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do cariri ao carinhanha
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euclides da cunha
desafia guimarães rosa
a provar que antônio conselheiro
conheceu lampião
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padim ciço entra na discussão
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conheceu não
conheceu sim
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conheceu adão
conheceu caim
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nicolas behr
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A foto da Ceilândia foi especialmente encomendada a Arthur Monteiro para ilustrar este poema especial. Obrigada, rapazes!


sábado, 19 de dezembro de 2009

em toda arte as coisas sonham sombras

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no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas
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silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho
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aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimétricamente calculadas
inauguram com humor
o outro lado do rigor
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o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?
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em toda arte
as coisas sonham sombras
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alice ruiz
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

toda vez que eu dou um passo...

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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Eu vivo no mundo com medo do mundo me atropelar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
E o mundo por ser redondo tem por destino embolar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Desde que o mundo é mundo nunca pensou de parar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
E tem hora que até me canso de ver o mundo rodar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Quando eu vou dormir eu rezo pro mundo me acalentar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
De manhã escuto o mundo gritando pra me acordar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Ouço o mundo me dizendo: corra pra me acompanhar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Se eu correr atrás do mundo vou gastar meu calcanhar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Eu procurei o fim do mundo porém não pude alcançar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Também não vivo pensando de ver o mundo acabar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Nem vou gastar meu juízo querendo o mundo explicar
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Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
E quando um deixa o mundo tem trinta querendo entrar
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Toda vez que dou um passo
o mundo sai do lugar
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Siba
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

na padaria

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No tempo tudo cabe
tudo muda de lugar
tudo some
não ficam parados no espaço
o gosto das frutas
e o cheiro dos homens.
O tempo dispensa a vontade alheia
impõe-se sobre a selva e a cidade
e destas nascem as folhas e os filhos
que o próprio tempo amadurece e faz saudade.
O tempo -- enorme! -- eleva os deuses
arrasta os homens
e espalha o mistério de uns
sobre a solidão dos outros.
De muito longe o tempo caminha
não como um velho
tão pouco uma criança:
unicamente caminha
-- e sugere a esperança
e adormece as rugas.
O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.
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Nirton Venancio
(do livro Poesia provisória)

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* Recomendo uma visita ao blog do Nirton, seus poemas são belos... É só clicar na assinatura dele aí em cima.

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sábado, 15 de agosto de 2009

tenho tudo quanto quero

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Belo Belo Belo,
Tenho tudo quanto quero.
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Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo -- que foi? passou -- de tantas estrelas cadentes.
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A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
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O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
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Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
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Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
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As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
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Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
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-- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
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Manuel Bandeira
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sábado, 8 de agosto de 2009

sai desse troço!

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Antidedicatória


Há dias de perceber
Do quanto moídos fomos,
Apenas areia no ralo.

Há dias em que, de fato,
O que seria alimento
É só resíduo do prato.

Há dias sobrando pranto,
Esses em que o girassol
É só o sol sem encanto.

Há dias de noites,
Terríveis penumbras,
Atmosferas netunas.

Há dias de amargura,
Em que o maior brilho
É só o coração de luto.

Há dias sem espetáculo
E todo o circo vazio
É a sua vaia, palhaço.

Há dias em que o mar
É só uma lágrima distante,
Numa eternidade fria.

Há dias em que o sorriso
É só o eco de um vento
Vazio, opaco, sem folhas.

Há dias de se re-voltar
Contra toda a sem-poesia
Que nos mantém numa bolha.

Há dias de dizer: “Seu moço!
-- E de se ouvir no fundo, no fundo... --
Sai desse troço!”
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Luiz Martins da Silva
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sábado, 1 de agosto de 2009

a brasília de hercília lopes

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A foto é minha, mas está aqui apenas fazendo figuração, para acompanhar a Brasília de Hercília Lopes neste belo poema:
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Brasília
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Meus passos compõem a música do inverno.
Triturando folhas secas me envolvo em melodias.
Então danço, canto, rodopio, crio ciclones de alegrias.
Saia em roda, roda de gigante; pernas de compasso são rodopiantes.
Via Láctea vermelha. Terra levantada.
Sou só eu neste Universo.Roda-viva, rodo a vida.
A cidade está em mim; horizonte em labaredas.
O barro arde e, teu céu, de branco, espera a primavera.
Amante nela, amada é. Plana. Cama de esperanças.
Chega! É tarde. Cega-me o seu sol com luz especial.
Cabe frear este meu delírio, pois já chego às raias da tontura.
Com cuidado, paro e piso.Volto a andar no belo chão.
Busco, agora, seus marrons diversos.
Para pintar minha fantasia no algodão...
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Hercília Lopes
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escapando da noite

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Estática
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Chego ao meu quarto escuro
Escapando da noite,
Em ânsia pela nudez
Do corpo e da alma
Arranco as roupas em fúria
Despertando estrelas
Fogos de artifício em
Festa da solidão.
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Hercília Lopes
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As fotos são minhas e o poema é de Hercília Lopes, a quem não conheço, mas que fez a gentileza de me enviar algumas poesias. Uma grata surpresa, elas são belíssimas. Obrigada, Hercília!
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domingo, 31 de maio de 2009

numa tela ou numa parede

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Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre...
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terça-feira, 19 de maio de 2009

alquimias

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Ramificações

Luiz Martins da Silva
(para Sandra Fayad)
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Creio seguir mutações
De inspirações vegetais.
São alquimias transgênicas
De gerações digitais.

Pois estou ramificando
Brotos, cachos, flores, galhos;
E até humores fluindo
Das raízes até o orvalho.

Pois nem sei ainda a forma,
Se rasteira ou copadora,
Também não é certa a idéia
De espinho a causar dores.

Mas tento entender a origem,
Tamanha a metamorfose,
De humanizar-me em ramagens
Que me pulsam em novos gozos.

E para viver nesse mundo,
De pássaros por testemunha,
Desdobro em ramos meus dedos;
Enrolo em gavinhas as unhas.

Já ensaio as conivências,
(Segredos da Terra e do Céu)
Detalhes da nova imanência
Que aprende das abelhas o mel.

Mas porém se me antevejo
Com semblante de outro reino,
Saibam: o coração é o mesmo,
O sangue é que virou seiva.
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domingo, 17 de maio de 2009

prisão domiciliar

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a juíza das minhas loucuras
é severa demais pra me inocentar
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não cobra depoimentos
nem sopra os ferimentos da tortura
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simplesmente decreta pra minha culpa
prisão domiciliar
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

seu capricho, sua ilusão, sua miopia

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Verdade
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A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
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Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
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Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
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Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

a realidade é um fogo

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Dai-nos a arte e o corpo, Senhor,
que a realidade é um fogo
para um engolidor despreparado:
espinhos na cabeça sem coroa
e com um sangue não coagulado.
A arte, Senhor, é uma outra coisa,
imagens que vão para o outro lado.
Se acaso erram ali um conteúdo,
os sons mantêm aqui um tom dourado.
E o corpo, Senhor, até mais doura,
embora do seu tempo a brevidade.
Dai-nos o corpo e a arte, Senhor,
com seus sétimos dias de descanso
a quem passou a noite na verdade.
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Quase oração
Celso Gutfreind
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